Remédios como muletas emocionais
Dedicação ao trabalho não deve afetar relações afetivas. Vivemos uma época de pressa e correria. E percebo que hoje se considera chique quem está apressado, como se a importância de alguém fosse medida pelo quanto ela esteja ocupada e ou venha a ser solicitada. Produção, conquistas, volume de coisas a se fazer.
As pessoas não se olham mais, não se interessam mais umas pelas outras, porque os compromissos são sempre mais importantes. A aquisição de bens materiais para se expor o sucesso financeiro é sempre mais importante. Mais importante que a convivência, mais importante que a delicadeza, que a gentileza. Mais importante que a humanidade presente na existência.
A evolução da tecnologia trouxe rapidez para nossas vidas. Faz-se necessário acompanhar a evolução dos recursos tecnológicos, sob o risco de ser excluído. Orkut, twitter, facebook… Você ainda não faz parte? Pois deveria fazer, diz a ordem geral. A modernidade dos aparelhos de telefone celular, a televisão digital, tudo em tamanho reduzido, como se fosse preciso andar com a casa acoplada em nosso corpo, nos bolsos, nas bolsas, nas pastas executivas. Tudo se faz urgente, não se pode perder nenhum minuto. É preciso estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
Mas, e a convivência, e as necessidades afetivas, e os sentimentos? Onde ficam? Perdidos dentro da bolsa, junto ao celular, ao mp4, à televisão digital? Um vazio que se faz presente entre a correria do dia-a-dia e os consultórios de psiquiatras, para onde vamos na tentativa de preencher o vazio que ficou. O antidepressivo e o ansiolítico tornam-se nossas muletas emocionais, mascarando, disfarçando a necessidade de afeto que grita dentro de cada um de nós.
Repensar a vida, repensar as necessidades reais, repensar a existência que se esvai por entre nossos dedos. Cada minuto vivido, cada pessoa que cruza nosso caminho, cada palavra trocada. ‘Ser chique é saber considerar o outro’, já dizia Glória Kalil. O outro que é meu irmão, minha esposa, meu colega de trabalho, o balconista da padaria, o motorista do ônibus, o panfleteiro no sinal de trânsito. Um outro que existe e sente. Como eu. Como você. Essa necessidade afetiva não está somente em mim ou somente no outro. Está em nós. E o melhor da existência é se permitir fazer essa troca.
Mas, estar verdadeiramente na companhia de um outro, ouvindo suas palavras, observando seus gestos, suas expressões traz uma exigência. É preciso desacelerar para que isso ocorra. É preciso fazer contato com o vazio, com a tristeza, com a carência afetiva que são muitas vezes mascaradas com o uso dos antidepressivos e com a pressa do dia a dia. De-sa-ce-le-rar. Pense nisso. Defina suas prioridades. Elas incluem as pessoas que você diz amar? Você está se permitindo conviver com as pessoas que diz amar e que te amam? Ou fez das relações mais uma das obrigações de um dia corrido? Desacelere. Viva o hoje. Com quem você ama.
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