Entrevista: Dia das Mães
“Não acredito na máxima de ‘um filho a qualquer preço’”
Cláudia Collucci é repórter especial da Folha de S. Paulo e há 20 anos acompanha a área da fertilidade. “Era uma época em que a maternidade passava bem longe das prioridades da minha vida”, lembra. O que não impediu que o interesse pelo tema da fertilidade fosse longe. Cláudia já tem dois livros publicados, em 2002 apresentou uma pesquisa de mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e desde 2005 mantém o blogue “Quero ser mãe“. Essa vontade pessoal, depois de um aborto espontâneo, coincide com o ano de criação do blogue. A partir de então, Cláudia passou a fazer parte das chamadas “tentantes”.

Nesta entrevista ela conta, a partir de sua experiência pessoal e das entrevistas que fez para seus trabalhos, como é passar a data do Dia das Mães para as mulheres que estão em dificuldade de engravidar. Mas, ao mesmo tempo, a jornalista afirma que “é preciso abrir o foco para a vida e lembrar que a cada dia chorado pelo filho que ainda não veio é um dia que não volta mais. Não se pode direcionar todas as frustrações apenas para esse filho. Até porque, quando ele nascer, imagine a pressão que sofrerá!”.
1. Você é autora de dois livros. O primeiro foi Quero ser mãe e depois Por que a Gravidez não vem? . Gostaria que falasse sobre o tema em questão. O que despertou o seu interesse por ele e a motivou a escrever cada um desses livros?
Acompanho esse tema há muito tempo, desde o início da minha carreira de jornalista. Acho fascinante a área da reprodução humana e os mecanismos que a ciência desenvolver para possibilitar o milagre da vida. O primeiro livro escrevi após receber um convite da Federação Latino Americana de Reprodução Humana de escrever uma obra voltada para os casais com dificuldade de gravidez. Há dez anos, quando o livro foi escrito, esse tema era pouco falado, os casais sofriam sozinhos essa dor da infertilidade. Já o segundo foi escrito a partir dos relatos e das dúvidas de leitores da minha coluna na Folha Online que, depois, se transformou no blogue “Quero ser mãe“.
2. Quais foram os seus objetivos com a publicação de cada um dos livros e como desenvolveu o trabalho?
Em Quero ser mãe entrevistei 40 casais que tiveram dificuldades de gravidez, uma destas entrevistas foi com a Fátima Bernardes e o Willian Bonner. Dividi a obra por problemas de saúde (endometriose e obstrução tubária, por exemplo) enfrentados pelos casais, casos de sucesso, de insucesso e de casais que partiram para a adoção. As pacientes se queixavam da necessidade de ler histórias de pessoas que passavam pelo mesmo problema. Foram dois meses em que viajei o país entrevistando casais. Foi uma experiência inesquecível! Chorei, ri, emocionei-me muito. Após o lançamento do livro, comecei uma coluna na Folha Online e depois, o blogue. Além disso, também mantenho o fórum de discussão sobre infertilidade que nasceu e cresceu junto com coluna, no Uol. Quanto ao livro Por que a Gravidez não vem?, reuni as 150 dúvidas sobre gravidez mais recorrentes dos casais inférteis e que tentavam ter filhos por meio da reprodução assistida. Com a ajuda de especialistas, demos os esclarecimentos científicos mais atuais sobre as questões.
3. Em linhas gerais, por que as suas entrevistadas desejaram ser mãe e qual seria o entendimento comum que se teria sobre o papel de mãe?
Muitas mulheres querem ser mãe porque entendem ser esse o curso natural da história feminina. Em algum momento da vida, esse desejo surge e passa a ser prioritário. Há quem defenda que isso pode ser biologicamente compreendido, outros autores argumentam que há uma pressão social para que isso aconteça. O fato é que as pesquisas populacionais (do IBGE, por exemplo) mostram que há mais mulheres desejando ser mãe do que o contrário. Sobre o que se entendia sobre ser mãe, além da “perpetuação dos seus genes”, há um desejo muito grande de amar alguém incondicionalmente, de viver a experiência do amor materno, de passar seus valores, suas crenças.
4. Para a publicação do livro, qual história mais te marcou e por que?
Acho que foi da Ana Moema, uma baiana que mora em São Paulo. Ela teve duas gravidezes naturais nas trompas (perdeu as trompas e os bebês), partiu para a fertilização in vitro, engravidou de trigêmeos e perdeu dois bebês durante a gestação. O terceiro sobreviveu, nasceu bem, mas, aos dois anos, morreu nos braços de Ana, durante um acidente de trânsito na via Dutra. Ana adotou em menina, fez um novo tratamento de reprodução e teve outra menina. É uma história incrível de superação e luta pela maternidade
5. Com relação ao Dia das Mães, o que se sente quando a data chega e a gravidez ainda não veio? Como agir nesta época do ano para que a pressão externa ou ansiedade pessoal por engravidar diminuam?
Acho que um bom começo para lidar com o Dia das Mães é pensar que a vida não pode se resumir em um filho. E muito menos em um filho biológico. Há várias formas de maternagem. Você pode ser mãe dos seus sobrinhos, pode adotar um filho ou pode simplesmente ser “mãe” das pessoas que ama. É preciso abrir o foco para a vida e lembrar que a cada dia chorado pelo filho que ainda não veio é um dia que volta mais. Não se pode direcionar todas as frustrações apenas para esse filho. Até porque, quando ele nascer, imagine a pressão que sofrerá!
6. Entre as histórias de tentativas de gravidezes sobre as quais escreve em seu blogue você também fala de sua vontade de engravidar? Por que e em que momento nasceu seu desejo de ser mãe?
Não tinha pensado ainda ser mãe até que quatro anos atrás engravidei naturalmente e sofri um aborto. Até então, o trabalho, os estudos e as viagens eram minhas prioridades. Mas a partir do aborto meu relógio biológico me alertou que, se eu desejava um filho, tinha que pensar seriamente no assunto. E é o que estou fazendo no momento.
7. Você na pensou na possibilidade de não ter um filho biológico? Como pensa em agir caso a gravidez não venha?
Penso sobre isso sim. Também penso seriamente na adoção. Hoje lido com essa questão muito melhor. Minha vida é ótima hoje e, mesmo que eu não tenha filhos biológicos, ela continuará ótima. Penso que um filho deva vir para somar, acrescentar valores nas nossas vidas. Mas nunca vi um filho como a razão da minha vida ou a única forma de me sentir feliz.
8. Você pretende publicar outros livros sobre o mesmo tema ou desenvolve/participa de algum projeto a respeito?
Tenho planos de publicar livros em outras áreas da medicina, já que especializei no jornalismo de saúde. Na área da reprodução, um tema que eu tenho estudado é a questão da bioética. Até onde se pode ir na busca de um filho? Não creio na máxima de “um filho a qualquer preço” e os casais deveriam pensar muito sobre isso antes de se atirarem nos dispendiosos e pouco eficazes tratamentos de reprodução assistida.
9. Nessa época do Dia das Mães, o que você diria para aquelas que estão tentando engravidar e como as pessoas entrevistadas se referiam a essa data, se se referiam?
Diria para que corram atrás deste sonho. Investiguem se têm algum problema físico ou emocional que está impedindo essa gravidez e não se acomodem no tradicional conselho médico do “relaxe e espere que a gravidez vai acontecer”. Conheço casos de mulheres que esperaram anos e, depois de muito tempo, descobriram, por exemplo, que tinham trompas obstruídas ou simplesmente o marido não produzia espermatozóides. O Dia das Mães sempre é uma data em que as mulheres que passam por esse problema se sentem angustiadas com a gravidez que ainda não veio. Parece que o mundo todo está grávido, menos elas.
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